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Mercado por dentro

De investidor em ações à Decade, a empresa de wealth management com IA que fez a maior rodada seed já registrada na América Latina

João Parizotto, CFA

Investimentos na Decade. Antes, sócio da Brasil Capital, onde começou como estagiário. Estagiou em DCM no J.P. Morgan. Engenheiro de produção.

Decade

O João começou em banco de investimento, entrou numa gestora fundamentalista como estagiário, foi analista de ações, chegou a sócio e trocou a gestão ativa por uma startup que junta IA e consultoria humana para cuidar de patrimônio. Em agosto, a Decade anunciou uma rodada seed de US$ 85 milhões (NeoFeed), a maior já registrada na América Latina nesse estágio, segundo dados da Lavca citados pela Bloomberg Línea. No meio do caminho, ele contratou estagiários, e conta o que mais pesava: gente que já sabia onde estava entrando.

O começo

Por que o mercado financeiro, e por que engenharia?

Eu queria trabalhar no mercado financeiro desde o colégio. Não me pergunte exatamente por quê: com 17 anos você não tem a menor capacidade de saber o que quer da vida. Mas era algo que sempre me atraiu. Tinha muita gente ao meu redor nessa carreira, ela desenvolvia várias habilidades e reunia muita gente inteligente.

Ao mesmo tempo, eu gostava muito de exatas: física, química, matemática. Não queria parar de fazer essas coisas. Engenharia de produção aliava as duas: um curso difícil, focado em exatas, que te prepara muito em hard skills e abre todas as portas do mercado. E os dois últimos anos têm uma carga um pouco mais leve, o que deixa espaço para estagiar.

Não participei de grupo de finanças na faculdade, e talvez essa seja a minha diferença para outras pessoas do mercado. Quando entrei, sabia mais ou menos o que cada área fazia, mas na prática não tinha ideia do que era buy side, sell side ou o que fazia um analista de investment banking.

Como foi o primeiro estágio, em DCM no J.P. Morgan?

Cheguei por um e-mail de carreiras: vi que tinha vaga aberta e mandei o CV. Nem lembro direito como era o processo na época, mas acho que você indicava algumas áreas, e eu botei investment banking. Teve dinâmica de grupo, e depois o RH te mandava para uma vaga dependendo do seu perfil. Quando cheguei lá, não fazia ideia do que ia encontrar. Nunca tinha trabalhado.

Primeiro emprego é meio que um choque. Você não faz ideia do que está acontecendo, é um negócio específico e eu não tinha nenhuma experiência. Fui entendendo o que cada área do banco de investimento fazia e o que a gente realmente vendia para os clientes.

Em DCM, o time ajuda uma empresa a levantar dívida, no nosso caso nos Estados Unidos. Pensa na melhor estrutura, no prazo, em quanto mais ou menos custaria essa dívida, se faz sentido refinanciar uma dívida que já está no balanço ou financiar um projeto lá fora. E apresenta os investidores.

O estagiário apoia o time em todas as tarefas, e boa parte do trabalho é montar material. Por exemplo, uma apresentação para a Vale com um update de mercado: quando a gente acha que um novo bond da Vale sairia, e uma operação possível, como recomprar o bond 2028 e emitir um 2036, com o impacto financeiro disso. Muitas rotinas já estão prontas e você vai executando. É mais o papel de quem executa do que de quem pensa o processo e vai a fundo.

Que perfil funciona em investment banking, e qual funciona em ações?

Banco de investimento tem uma carga de trabalho bem alta, então conseguir lidar com isso é importante. É dinâmico: você precisa entregar com velocidade e com qualidade alta. Tem que ser detalhista, estar disposto a trabalhar muitas horas e ter bastante afinidade com finanças, porque toda hora você lida com números e conceitos financeiros.

É muito diferente do perfil de um analista de ações, que foi o que fui vendo que eu era. O analista de ações quer ir até o último detalhe. É mais curioso, vai até a última gota de informação, pesquisa temas completamente diferentes sem saber qual vai ser o link entre eles, para formar um big picture e ter uma opinião. O banqueiro, no fim do dia, não tem que ter opinião: não está decidindo comprar ou vender um ativo e colocando o dinheiro na linha. Está ajudando outros a estruturar deals que sejam bons para a empresa e para o investidor.

Como foi a mudança para public equities?

Se eu puder ser bem honesto: você só consegue ligar os pontos depois, como dizia o Steve Jobs. Não teve um momento de ruptura. Eu até gostava do que fazia, não morria de amores, mas sentia que estava evoluindo. Só que eu queria uma experiência de vida, de intercâmbio, e fui. No intercâmbio estudei muito mais public equities, conversei com bastante gente do mercado, e era um momento em que esse mercado estava em alta. Ali decidi que queria algo mais ligado a investimentos.

A curva de aprendizado no segundo emprego foi muito grande. Você já sabe trabalhar, já chega com o conhecimento técnico que eu não tinha no primeiro, e com a experiência de um lugar como o J.P. Morgan, onde se trabalha muito. Você já chega jogando.

Analista de ações

O que era a Brasil Capital, e o que você cobria?

A Brasil Capital é uma casa fundamentalista, de visão de longo prazo, que investia em ações brasileiras listadas em bolsa, aqui ou lá fora. A gente não tinha uma definição de "somos growth" ou "somos value", mas era muito mais voltada para value investing.

Comecei olhando varejo e consumo, shoppings, tecnologia e saúde. Com o tempo fui ganhando escopo e virei o analista principal de alguns setores: agro, bens de capital, educação, além de algumas empresas de tecnologia e de varejo. Mais setores, mais empresas, mais responsabilidade.

O que muda de estagiário para analista?

Os fundos variam, mas em geral o estagiário tem bastante autonomia e dá input. Todo mundo pode dar opinião, mas o peso que o gestor dá à opinião do estagiário é muito menor do que à do analista sênior. Como estagiário, você vai a todas as reuniões com as empresas e participa da modelagem. Está sempre na sala entendendo o que acontece, e é isso que vai moldando o seu modelo mental de investimentos.

Como estagiário eu já fiz modelo do zero e atualizei muito modelo, mas sempre com supervisão. Conforme você fica mais sênior, a supervisão diminui muito e você toca as coisas sozinho: começa a fazer reuniões sozinho e a liderar algumas empresas. Tipo: "vamos olhar essa empresa que está fazendo IPO, João, você lidera". Um sênior acompanha e a opinião dele continua pesando mais, mas você decide com quem falar, que análises fazer, como montar o modelo.

Como é o dia a dia de um analista de ações?

O dia a dia não muda tanto com o cargo. Sempre tem uma parte para modelagem e números, mas é pequena: uns 20% da semana. Os outros 80% são qualitativos: conversar com gente da indústria e acompanhar os cases que você segue. Ler, falar com gente, escutar. É um dia a dia de pesquisa.

O banco é o seu broker e facilita a vida em várias frentes: você pode conversar com o analista do banco, pedir que ele marque uma reunião com a empresa ou com um concorrente, ou ir a eventos que ele organiza. Mas a gente sempre buscava ter os próprios relacionamentos com a indústria, em todos os setores. Uma grande parte do trabalho é conversar com as pessoas certas. Não é informação privilegiada: é ter óticas diferentes e isentas de cada setor, que não estejam sempre enviesadas para o mesmo lado.

O que separa um bom analista de ações?

Primeiro, ser extremamente curioso e olhar o problema de vários ângulos. Segundo, ser extremamente diligente: estar a par de tudo e não deixar passar nada. Mas existe uma terceira camada, que fui concluindo que é a mais importante: ser capaz de filtrar o que é ruído. No Brasil, com poucas empresas para olhar, às vezes a empresa consome 10 milhões de reais de capital de giro num trimestre, algo que deve voltar no trimestre seguinte e pode ser normal do negócio, e a galera entra em pânico achando que alguma coisa mudou absurdamente.

E muitas vezes você fica apegado ao seu trade, ou aparecem vieses. Conseguir evitar esses vieses é muito importante. É experiência, mas é personalidade também: tem gente que tem muito mais facilidade de separar os vieses e tem gente que não tem.

"O mais importante é ser capaz de filtrar o que é ruído."

O que você mais valorizava ao contratar alguém júnior para public equities?

Eu gostava muito de quem vinha dos grupos de finanças da faculdade, com experiência de case de public equities. Eu sentia que a pessoa sabia o que a gente fazia. Já tinha olhado uma empresa a fundo e conversado com um monte de gente de public equities, porque é curiosa. Quando eu via que a pessoa tinha contatos, que foi atrás de conversar com gente de outros fundos, isso eu valorizava bastante.

Eu queria alguém que chegasse tocando: eu falo "vou olhar esse caso aqui" e não preciso explicar o que é a linha de fornecedores no balanço, nem por que ela importa na hora de olhar uma empresa. E buscava um bom mix de soft e hard skills para explicar as teses. Quando as decisões são de um colegiado, boa parte do trabalho é explicar a sua ideia com uma linha de raciocínio clara o bastante para todo mundo comprar.

"Eu queria alguém que chegasse sabendo o que a gente fazia."

A saída da gestão

Por que sair de uma gestora para uma startup?

Fazia um ano e pouco que eu vinha pensando no que queria para a minha carreira. O negócio de gestão ativa é muito complicado. Numa gestora, o trabalho não muda, e a quantidade de ativos que ela gere depende mais do momento de mercado do que de algo que ela faça no micro. Isso me incomodava: você tem muito pouco a fazer para a empresa andar para frente, não tem como pôr a mão na massa e fazer um negócio melhorar. Você tem que acertar os calls. Estudar muito aumenta a sua chance e a sua assimetria, mas você depende de uma série de variáveis, e nada que você faça depois de investir muda isso.

Quando entrei, a gente vinha de um bull market muito forte em 2019. Entrei em 2020, e de lá até 2026 foi um período muito duro para a bolsa, com juro muito alto. Os anos bons vieram depois de anos muito ruins e foram puxados pelas empresas de commodities, principalmente a Petrobras. De 2022 a 2026, a bolsa andou uns 65%; sem a Petrobras, uns 50%; e as small caps, muito pior. O CDI deu 65% no período. Os fundos em média não tinham a Petrobras com o peso que ela tem no índice, então quase ninguém gerou alfa, e as gestoras foram minguando. Quantas não saíram de 15 bilhões para 1 ou 2 bilhões? Teve gestora de 10 bilhões que sumiu.

Ao mesmo tempo, eu via tudo que estava acontecendo em IA. No começo de 2025 voltei a programar um pouco e a brincar com as ferramentas que estavam saindo, e aquilo abriu muito a minha cabeça. Pensei: não quero ser gestor, não quero brigar no jogo da gestão ativa, que é muito difícil de ganhar no mundo inteiro. Quero participar de um projeto em que eu acredite na tese e nas pessoas. Queria empreender, para falar a verdade. Conheci o time meio por coincidência, e foi uma decisão fácil.

Hoje, na Decade

O que a Decade faz?

A gente quer juntar o melhor da IA com o melhor do humano: a precisão, o conhecimento e o contexto que a IA tem com o acolhimento, a segurança e o tato do humano. Juntando as duas coisas, a gente acha que consegue oferecer um serviço muito melhor e mais escalável do que existe hoje para quem não tem acesso a um family office: quem tem de 500 mil a 10 milhões de reais. Quem tem mais do que isso a gente também atende, mas não é aí que está o nosso diferencial, porque esse cliente já é bem servido hoje.

E o que faz o time de investimentos?

Hoje o time de investimentos tem cinco pessoas, e tem vários chapéus. Como somos uma empresa de IA, temos muita interface com dados, com IA e com design. O primeiro chapéu é pesquisa e construção de carteiras, que sempre precisa ser traduzida para a IA. A gente faz a pesquisa junto com a IA, usando ferramentas de IA, mas também tem o trabalho de digerir tudo isso e mostrar para a IA de um jeito que ela entenda.

O segundo é ajudar no negócio de wealth. Temos dois produtos. No Intelligence, você tem na plataforma todos os seus investimentos, o seu fluxo de caixa e a análise do portfólio, tudo feito com IA, e pode pedir recomendações. É uma experiência mais self-service, onde o cliente conta com tudo centralizado e várias análises feitas sobre o seu portfólio e fluxo de caixa, mas sempre tem um acompanhamento humano quando ele quiser. No Wealth, a gente é mais proativo: o plano de investimento é liderado por um humano, e coordenamos também o planejamento patrimonial e tributário. E quem é de investimentos também é alocado para cuidar de clientes: eu ajudo a montar as carteiras, então tem uma parte bem de front office.

O terceiro é produto: sempre precisam de alguém de investimentos nas frentes de dados, IA e design.

Você teve que desligar alguma chave para pensar investimentos aqui, depois da gestora?

Não acho que precise desligar a chavinha. Num fundo de ações, você busca ações: pensa em perda permanente de capital e em assimetrias que protegem o capital mas têm uma chance grande de valorização. Você é pago para o stock picking. Na carteira de um cliente nosso, a gente está cuidando das economias de uma vida. Não é um mandato de gerar alfa na parte do dinheiro que está em ações: o mandato é cuidar do patrimônio inteiro.

Então a mentalidade passa a ser de equilíbrio. Não posso ter todos os ovos numa cesta só. Se a eleição de domingo decide se a carteira do cliente sobe 50% ou cai 50%, está errado. A carteira tem que ficar no segundo ou terceiro quartil em todos os cenários: bem em qualquer um, sem desastre em nenhum. Isso não quer dizer que a gente não tenha opinião. A gente busca as melhores assimetrias, mas com a carteira balanceada o bastante para nunca estar mal. Nunca vamos buscar a ação que multiplica por dez. Buscamos eficiência tributária, eficiência de custos e uma alocação balanceada entre moedas, indexadores e classes de ativos, para ir bem ao longo de vários ciclos. A gente não pensa em trimestre ou em mês: pensa em décadas de valorização do capital dos clientes.

"A gente não pensa em trimestre ou em mês: pensa em décadas."

O que você valoriza em quem entra no time?

Valorizo muito gente que quer aprender e está disposta a trabalhar num ambiente em que as coisas mudam toda hora. A gente está na fronteira do conhecimento, não tem nada pronto: tem que ir lá e fazer. Gosto de ver como a pessoa pensa, a capacidade de resolver problemas. E gosto de testar conhecimento de investimentos de verdade, pensando no cliente: ir fundo nas premissas que a pessoa usou e ver o que sai.

No Guia das Casas

O João contou também como a Decade olha o case que manda aos candidatos, e o que faz uma resposta ser descartada quase na hora. Essa parte está no perfil da Decade, junto com o que a casa faz, quem lidera e os últimos marcos.

Ver no Guia das Casas

Para quem está começando

O que você diria para quem está onde você estava há dez anos?

Valorizo muito ter começado a carreira como investidor. Desenvolve habilidades muito boas, e acho que as pessoas deveriam considerar essa carreira. Mas o mix de começar como investidor e depois ir para algo mais empreendedor é muito legal: você desenvolve áreas do cérebro completamente diferentes. Fico bem feliz com a decisão que tomei. Fazer a carreira inteira em investimentos é para um perfil muito específico de pessoa, mas a habilidade de alocar capital, analisar uma empresa e pensar uma decisão financeira é das que mais envolvem julgamento.

Vai entrevistar numa gestora ou numa casa como a Decade?

O Estágio Zero completo junta três partes: o Guia das Casas, com o perfil da Decade e de mais de 170 casas; o Banco de Questões Técnicas, com perguntas que caíram em processos de verdade; e o Guia de Entrevista. O que a nossa rede conta nas conversas também alimenta o Banco, o Guia das Casas e o Guia de Entrevista, que assim se mantêm atualizados.

R$ 59,90 por mês

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Conversa gravada, editada para leitura e aprovada pelo João.